
Santa Catarina teve aumento de 24,3% nas mortes cometidas por policiais em 2025, com cerca de um caso registrado a cada quatro dias. Dados da Secretária de Segurança Pública (SSP) obtidos por meio da Lei de Acesso a Informação (LA) pelo NSC Total mostram que, no último ano, 92 pessoas morreram em decorrência a intervenção da Polícia Militar de Santa Catarina (PMSC), o maior número registrado desde 2019. Em 2024, o número registrado no Estado foi de 74 casos. Em nota (veja abaixo), o órgão declara afirma que o aumento nas mortes tem relação com as operações realizadas no Estado.
O caso mais recente foi registrado em Joinville, no Norte de Santa Catarina, no dia 27 de abril, quando dois homens foram mortos pela polícia durante um assalto na cidade. Um terceiro suspeito do crime acabou detido. Conforme o relatório da Polícia Militar, os homens teriam desobedecido às ordens da equipe policial durante a abordagem e oferecido risco contra os agentes, após tentativas de disparos. Diante da situação, os policiais reagiram, “de forma proporcional e moderada”.
Equipes de emergência foram acionadas, porém, devido a gravidade dos ferimentos, os dois homens morreram no local antes da chegada dos socorristas. A identidade deles não foi divulgada.
A série histórica analisada pelo NSC Total (2019-2025) mostra que 2025 foi o ano com o maior número de mortes causadas por policiais. Em 2019, foram contabilizadas 74, número que aumentou para 84 em 2020 (+13,5%). Nos dois anos seguintes, observa-se uma queda consistente: 66 mortes em 2021 e apenas 43 em 2022, o menor valor de toda a série analisada.
A partir de 2023, contudo, ocorre uma mudança significativa de patamar. O número de mortes saltou para 75, representando um aumento de 74,4% em relação a 2022. Em 2024, o total permanece praticamente estável (74 mortes), mas em 2025 há nova elevação expressiva, atingindo 92 mortes, o maior número do período. Esse crescimento de 2024 para 2025 corresponde a um aumento percentual de 24,3%.
Comparando 2020 e 2025, o aumento acumulado é de aproximadamente 9,5%, o que sugere que, apesar da queda registrada até 2022, o período posterior não apenas compensou essa redução, como levou o indicador a um nível superior ao do início da década. A média anual de mortes entre 2019 e 2025 é de cerca de 72,6.
Em 2025, as 92 mortes correspondem a uma média aproximada de 0,25 morte por dia, ou seja, uma pessoa morta a cada quatro dias em confrontos com a PM ao longo do último ano.
Aumento de 18% nos primeiros quatro meses de 2026
Já ao analisar os primeiros quatro meses de 2026, segundo dados da SSP, 39 pessoas foram mortas decorrente de intervenção da Polícia Militar de Santa Catarina. O número, contabilizado até o dia 10 de abril, representa um crescimento de 18,18% em relação ao mesmo período do ano passado, quando foram registradas 33 mortes.
O dado, no entanto, não leva em consideração as mortes registradas recentemente, como por exemplo, o confronto armado contra a polícia nas proximidades da Vila Aparecida, em Florianópolis, que terminou com três homens mortos, no dia 14 de abril, e nem o caso registrado em Joinville, em 27 de abril, que teve duas mortes. Com isso, os dados subiriam para 44 mortes.
Número de mortes em conflito com a PM de SC ao longo dos anos
- 2019: 74 mortes
- 2020: 84 mortes
- 2021: 66 mortes
- 2022: 43 mortes
- 2023: 75 mortes
- 2024: 74 mortes
- 2025: 92 mortes
- 2026: 39 mortes (até 10 de abril)
Homens brancos e jovens predominam o perfil dos mortos em SC
O perfil predominante das mortes decorrentes de intervenção policial com a polícia em Santa Catarina, segundo os dados da SPP, é de homens jovens, principalmente entre 21 e 30 anos, mortos à noite ou na madrugada, em municípios urbanos, com frequência associados a ocorrências envolvendo tráfico de drogas ou crimes patrimoniais.
Entre 2019 e 2022, apenas uma mulher morreu em confronto com a polícia, frente a 266 pessoas do gênero masculino.Já entre 2023 e abril de 2026, foram registradas mortes de três mulheres e 277 homens. Isso significa que mais de 98% das mortes envolvem pessoas do sexo masculino.
Em termos de idade, o perfil predominante é o de jovens adultos. A faixa etária de 21 a 30 anos concentra o maior número de mortes nos dois períodos analisados, com 125 casos entre 2019 e 2022, e 121 casos entre 2023 e 2026.Observa-se ainda um aumento expressivo de mortes de pessoas entre 31 e 40 anos, passando de 28 casos entre 2019 e 2022 para 67 casos entre 2023 e 2026.
Quanto à raça ou cor, pessoas brancas são maioria entre as vítimas em Santa Catarina, o que dialoga com a composição demográfica do Estado. Contudo os dados mostram uma mudança no perfil racial ao longo do tempo. Entre 2019 e 2022, pretos e pardos somaram 73 mortes; de 2023 até abril de 2026, esse número sobe para 95.
2019 – 2022
- Amarela – 1
- Branca- 181
- Negro – 25
- Parda- 48
- Não informada – 12
2023 – 2026
- Amarela – 1
- Branca – 162
- Indígena – 1
- Negro – 34
- Parda – 61
- Não informada – 12
22% das cidades de SC registraram mortes cometidas pela PM nos últimos 3 anos
Outro dado apontado pelo levantamento é de que 66 municípios catarinenses registraram mortes decorrentes de intervenção policial entre 2023 e 2026, o que equivale a cerca de 22% das cidades do Estado. Esse número é superior ao do período entre 2019 e 2022, quando 60 municípios tiveram registros, apontando para uma maior disseminação territorial do fenômeno.
Em Florianópolis, foram 43 mortes entre 2019 e 2022. Já entre 2023 e 2026, foram 92, um crescimento de 46%. Joinville, no Norte catarinense, houve diminuição de 61,54% no número de mortes entre os períodos analisados. Entre 2019 e 2022, o número mortes registrados foi de 26. Já entre 2023 e 2026, o número diminuiu para 10 casos.
Na sequência entre as cidades com maiores números de mortes aparece São José, na Grande Florianópolis, com 13 casos entre 2019 e 2022. Entre 2023 e os primeiros meses de 2026, o aumento foi de 46,15%, passando de 13 casos para 19.
Número de mortes por cidades entre 2019 e 2016*
- Florianópolis – 135
- Joinville – 36 casos
- São José – 32 casos
- Camboriú – 30 casos
- Itajaí: 26 casos
- Navegantes: 23 casos
- Balneário Camboriú – 20 casos
- Blumenau: 20 casos
- Palhoça – 18 casos
- Lages: 17 casos
*Dado até abril de 2026
Entre 2023 e 2026, a maioria das mortes ocorreu à noite e durante a madrugada, concentrando mais de dois terços dos casos.
No que se refere ao histórico criminal, os dados revelam um quadro complexo. Se pegar o recorte apenas de 2025, é possível perceber que, embora o tráfico de drogas apareça como o crime mais frequentemente associado às ocorrências, com 47 registros, seguido por crimes patrimoniais (33 registros), contra a vida (13) e porte ilegal de arma de fogo (12), chama atenção o fato de que uma parcela significativa das mortes — cerca de 25% em 2025 — foram de pessoas que não tinham passagens policiais registradas
Para a antropóloga e especialista em Segurança Pública, Flávia Medeiros, o fato de que a maioria dos mortos pela polícia tinha passagem policial, principalmente por tráfico de drogas, seguido por crimes contra o patrimônio, não deve justificar a morte.
— Temos estabelecido no Brasil legislação e normas de persecução penal, de julgamento judicial e de responsabilização criminal que envolvem prisão. A morte não é uma pena legítima para pessoas que praticaram ilícitos.
O coordenador do Fórum Brasileiro de Segurança Pública, Leonardo Silva, destaca que o uso da força é uma premissa do trabalho policial, levando em consideração que o Estado detém o “monopólio da força”, delegado para as instituições policiais. No entanto, existem uma série de protocolos e medidas que devem ser adotadas antes do uso da força letal para garantir que esse seja um recurso de última instância, como explica o pesquisador.
— Existem níveis de uso da força que começam desde a presença do policial. A simples presença dele é, sim, um mecanismo de usar força. Temos a verbalização, quando o policial dá uma ordem ou dá uma instrução para alguém da população, depois temos o uso da força física não letal, onde o policial aprende técnicas de mobilização e conta com equipamentos menos letais, até chegar ao último nível, que é justamente o uso da força em nível letal — aponta.
Para o especialista, o índice de mortes decorrentes de intervenção policial diminuirá quando o Estado entender que o controle da letalidade é uma questão prioritária. Ele também destaca que o discurso e mensagem de um governo ecoa diretamente na na tropa e influencia a atuação policial.
— Com inteligência, investigação e tecnologia, você reduz ocorrências de confronto. Esses confrontos não impactam a dinâmica criminal e colocam policiais, vítimas e a população em risco, já que muitas vezes ocorrem em via pública.Essas situações precisam ser evitadas e só devem ocorrer em casos de extrema necessidade — sinaliza.
Já para a antropóloga e especialista em Segurança Pública, Flávia Medeiros, para reduzir esse tipo de ocorrência é preciso mudanças estruturais de longo prazo. Entre elas estão a responsabilização cível e criminal do Estado e dos policiais envolvidos em homicídios decorrentes de intervenção policial, com investigação e julgamento pelo Tribunal do Júri.
Ela destaca ainda a importância de políticas públicas em áreas como educação, saúde, cultura, lazer e trabalho, além de reparação às famílias das vítimas.
— Enquanto a segurança pública for entendida como uma racionalidade armamentista, militarizada e de confronto, os números de mortes decorrentes de intervenções policiais irão aumentar — pontua.
Em 2024, ocorrências representaram 11% das mortes violentas
De acordo com dados do Anuário Brasileiro de Segurança Pública de 2025, Santa Catarina apresenta uma das menores taxas do Brasil por Mortes Violentas Intencionais (MVIs), com 8,5 registros a cada 100 mil habitantes, atrás apenas de São Paulo.O índice reúne registros de homicídios dolosos, feminicídios, latrocínios e lesões corporais seguidas de morte e mortes em decorrência de intervenção policial.
Em números absolutos, foram 685 MVIs em 2024, diante de 674 em 2023. Apesar da leve alta, não houve alteração na taxa de mortes: 8,5. O dado ficou abaixo da média nacional, de 20,8 a cada 100 mil habitantes.
Do total de MVIs registrados em Santa Catarina em 2024, 11,5% foram em razão da intervenção policial. O número é quase o mesmo que o registrado em 2023, com 11,7% das mortes em razão da polícia. No Brasil, do total de MIVs em 2024, 14,1% foram de violência policial. Os dados de 2025 ainda não fooram divulgados pelo Fórum.
Em relação à região Sul, Santa Catarina fica em segundo lugar no percentual das mortes violentas intencionais causadas pela intervenção policial registradas em 2024. A primeira posição é ocupada pelo Paraná, com 18,4% das MVIs causadas por intervenção policial. O Rio Grande do Sul ocupa o terceiro lugar, com 8,7% do total de MVIs registradas causadas pela PM.
Segundo Leonardo, Santa Catarina mantém relativa estabilidade quando observados os dados gerais de violência.
— Santa Catarina está estável nos últimos anos, com uma das menores taxas de mortes violentas intencionais. O Brasil vem caindo ao longo dos últimos anos no número de mortes violentas intencionais. Na Região Sul, houve aumento entre 2020 e 2022, seguido de redução em 2023 e 2024, movimento que acompanha parcialmente a dinâmica nacional. Cada estado tem uma dinâmica própria. As mortes decorrentes de confronto com a polícia revelam as políticas públicas de segurança ou a ausência dessas políticas — diz.
Uso da força precisa ser analisado, diz especialista
De acordo com o coordenador Leonardo Silva, quando um policial faz o uso da força letal e fica comprovado que ele perpassou por todos os outros níveis de força e que atirar em um suspeito realmente foi necessário para contê-lo, é entendido que houve um “confronto e uma situação de uso legítimo da força letal”. No entanto, ele alerta que há casos onde os limites são extrapolados.
— O que nós temos visto, em um primeiro ponto, é que em reiterados casos das polícias do Brasil, vemos o uso da força letal de forma desproporcional ao que a ocorrência pede — afirma o pesquisador.
Como exemplo, ele destacou o caso da policial militar Yasmin Cursino Ferreira, de 21 anos, que matou com um tiro no peito Thawanna Salmázio, em São Paulo, depois de uma discussão após o braço do marido da vítima ter tocado no retrovisor da viatura em que a policial estava em patrulhamento. Ela está afastada das ruas e é investigada pela Corregedoria da PM.
A definição e o cumprimento das etapas são regidos por protocolos e manuais de procedimentos padrão criados pelas próprias polícias, fundamentados em estudos, doutrinas e tratados internacionais dos quais o Brasil é signatário.
— Toda vez que tem um caso que envolve a morte provocada a partir de uma operação de um agente de um policial, a própria corporação e o Ministério Público precisam iniciar um procedimento de investigação para verificar se o policial agiu de acordo com esse manual. Uma vez que se comprove que ele perpassou por todas as etapas e que ele agiu de maneira proporcional à situação, ele é amparado pela lei. Mas quando ficam comprovadas as ações em que o uso da força letal foi desproporcional, nós temos um caso de homicídio — afirma.
Fim das câmeras corporais entra em debate na Justiça
Em 2024, o uso de câmeras corporais pela Polícia Militar de Santa Catarina foi suspenso, justificado pela corporação pela defasagem tecnológica, falta de manutenção adequada e insuficiência de espaço para armazenamento das imagens. O Estado foi pioneiro na implementação das câmeras corporais no Brasil, ainda em 2019.
Outra justificativa utilizada foi o comprometimento da privacidade, segundo alguns policiais. Desde de setembro de 2024, quando o uso foi suspenso, até abril de 2026, foram 151 mortes registradas em confrontos. De acordo com o pesquisador Silva, a retirada das câmeras no Estado pode ser considerada um “retrocesso”.
— Além da perda do instrumento em si, que visava garantir a segurança e a tranquilidade da maior parte dos policiais que atuam dentro dos protocolos, os policiais perdem uma prova técnica que lhes dão mais segurança jurídica para trabalhar, em favor de uma minoria policial que acaba praticando atos que não estão de acordo com os manuais de procedimento. O ato de tirar as câmeras também é uma mensagem política que os gestores passam para aqueles policiais que estão ali nas atividades operacionais, que os mecanismos de controle da força estão sendo afrouxados — destaca.
Isso porque as câmeras, com a implementação de ferramentas tecnológicas de captação de vídeo, produzem provas técnicas para fazer a vigilância do ambiente durante uma ocorrência.
— Para aqueles policiais que estão agindo dentro dos protocolos, isso é uma garantia que assegura a sua segurança jurídica para ele provar que agiu dentro dos protocolos. Vimos inúmeros casos que essas câmeras foram usadas para corroborar situações que os policiais agiram dentro dos protocolos e foi necessário o uso legítimo de força letal. Mas também temos visto vários casos de uso desproporcional da força, onde esses vídeos acabam desmentindo o depoimento de policiais que atuam fora do que determinam os manuais — aponta.
Para o Ministério Público de Santa Catarina, em uma ação protocolada pela Defensoria Pública do Estado, as câmeras corporais são reconhecidas como instrumentos importantes para garantir transparência na atuação policial, controle do uso da força e qualificação das provas. Por isso, o órgão pede que o Estado seja condenado a restabelecer o programa de câmeras corporais.
Se isso não acontecer de forma integral, a 40ª Promotoria de Justiça da Capital, que atua no controle externo da atividade policial, requer que seja fixado, ao menos, o uso obrigatório em situações específicas, como no ingresso em residências sem mandado judicial, em operações policiais envolvendo manifestações públicas, controle de distúrbios civis e reintegrações de posse e no atendimento de ocorrências de violência doméstica ou violência contra as mulheres. O processo segue em tramitação. Procurada, a PM afirmou que não irá se manifestar até a decisão final.
O que diz a PM
A reportagem tentou marcar uma entrevista com o comando da PM no Estado para comentar os números, mas a corporação informou que iria se manifestar apenas em nota. No texto, a Polícia Militar afirmou que houve um “aumento expressivo” no número de operações policiais realizadas no Estado que, segundo a instituição, passou de 300% nas ações operacionais, “o que amplia naturalmente a exposição ao risco em ocorrências dessa natureza”.
Conforme a PM, a partir do aumento no volume de operações, “o crescimento no número de mortes em confronto ocorreu em proporção muito inferior”, o que “indica uma redução da taxa do índice por operação”.
Veja a nota da PMSC na íntegra
“A Polícia Militar de Santa Catarina (PMSC) informa que houve um aumento expressivo das operações policiais realizadas no estado. Nos últimos períodos, houve um incremento superior a 300% nas ações operacionais, o que amplia naturalmente a exposição ao risco em ocorrências dessa natureza.
Apesar desse aumento significativo no volume de operações, o crescimento no número de mortes em confronto ocorreu em proporção muito inferior, o que, na prática, indica uma redução da taxa do índice por operação. O dado reforça o compromisso da corporação com a atuação técnica, o uso progressivo da força e a preservação de vidas.
A PMSC destaca ainda que os casos de confronto decorrem, em sua maioria, da resistência de suspeitos às ordens legais emanadas pelos policiais militares, muitas vezes optando pelo enfrentamento direto, resultando em apreensões de armas de fogo, inclusive de grosso calibre, e munições. Nessas situações, os agentes atuam dentro dos protocolos operacionais e da legislação vigente, visando garantir a segurança da população e a própria integridade.
A instituição reafirma seu compromisso com a transparência, a legalidade e a constante qualificação de seu efetivo, buscando sempre a redução de riscos e a proteção da sociedade catarinense”.
Fonte:Nsc